sábado, 3 de setembro de 2011

Sobre ter 19 anos (e algumas outras coisas)

Tinha 19 anos e arrogância. Acredito que aos 19 a pessoa tem o direito de ser arrogante; geralmente o tempo ainda não começou suas furtivas e infames subtrações. Ele nos leva os cabelos e o poder de explosão, como diz um conhecida canção country, mas no fundo leva muito mais.
Dezenove é a idade em que você diz: Cuidado, mundo, estou fumando TNT e bebendo dinamite, por isso, se você sabe o que é bom pra você, sai do meu caminho...
Os 19... é uma idade egoísta, que restringe severamente as preocupações das pessoas. Eu tinha muita coisa na minha frente e era o que me importava. Tinha uma máquina de escrever que carregava de uma porra de apartamento pra outro, sempre com alguma coisa para fumar no bolso e um sorriso na cara. Os compromissos da meia idade estavam longe, os ultrajes da idade avançada, além do horizonte. Eu me sentia infinitamente poderoso e infinitamente otimista; meu bolso estava vazio, mas a cabeça estava cheia de coisas que eu queria dizer e o coração cheio de histórias que queria contar. Soava muito tranquilo. Mais que tudo, eu queria penetrar nas defesas dos meus leitores, queria rompê-las, capturá-las e tocá-las, para o resto da vida, por nada mais que histórias. E sentia que podia fazer essas coisas. Sentia que tinha sido feito para fazer essas coisas.
Até que ponto isso parece pretensioso? Muito ou pouco? De um modo ou de outro eu não peço desculpas. Eu tinha 19 anos. Não havia um único fio grisalho na minha barba. Eu tinha três calças jeans, um par de botas, a idéia de que o mundo era minha ostra.
Talvez a melhor idade. Você pode rolar no rock a noite toda, mas quando a música cessa e a cerveja chega ao fim, você consegue pensar. E sonhar sonhos grandes.
Aos 19, podem mandar você parar no estacionamento, sair da porra do carro, levar sua dolorida queixa para o meio da estrada, mas não podem apreendê-lo quando você senta para pintar um quadro, escrever um poema ou contar uma história, pelo amor de Deus, e se por acaso você, que está lendo isso, ainda é muito novo, não deixe que os mais velhos e supostamente mais vividos lhe dizerem nada diferente. Certo, você nunca esteve em Paris. Não, você nunca correu com os touros em Pamplona. Claro, você é um moleque que três anos atrás ainda não tinha cabelo debaixo do braço... mas e daí? Se você não começa grande demais para sua calça, como vai caber dentro dela quando crescer? Deixe que ela rasgue, não importa o que os outros digam, esse é o meu ponto de vista; sente-se e fume a calça.
Outra coisa, se me der licença, sobre ter 19 anos: é a idade, creio, em que muitos ficam razoavelmente confiantes (mental e emocionalmente, se não fisicamente). Os anos vão passando e um dia você descobre olhando o espelho com real admiração. Por que essas rugas no meu rosto?, você pergunta. De onde veio essa barriga? Droga eu só tenho 19 anos! Não é propriamente uma idéia original, o que de algum modo compromete o espanto das pessoas.
O tempo põe o grisalho na sua barba, o tempo leva o poder de explosão e enquanto isso você está pensando  -como um tolo- que ele ainda está do seu lado. Seu lado lógico está bem mais informado, mas o coração se recusa a dar-lhe créditos.

Stephen King, 25 de janeiro de 2003. Trechos da introdução de "A torre negra vol. 1 - O pistoleiro"


É isso?

Você não pode colocar a vida em pausa, ela não espera.

O café estava em cima do seu livro preferido, quando bebeu o café, viu a marca deixada pela xícara azul. Essa é a mesma marca que algumas pessoas deixam em nós. Podemos até tentar limpá-la, mas não é possível voltar a ser o mesmo ou deixar a capa do livro limpa.
Leu o bilhete que Giulinha deixou no seu casaco e não entendia o motivo da fuga da moça dos cabelos compridos presos num coque.
(...) "Porém só essa noite" 
Tentava pensar em alguma coisa que fez de errado e não obteve respostas.
The Strokes ecoava pelo quarto... is this it? is this it? (clique e ouça)
Lembrou da noite mágica da semana passada. Não tinha olhos para outra, imaginava o que ela estava fazendo e  quase pirava com isso. 
Seria tão mais fácil se ela me ligasse -pensava a todo momento.
Tentou ocupar sua cabeça com alguma coisa boba (só para esquecê-la) e começou a ler Stephen King, leu 2 ou 3 páginas.
Era sábado e não tinha feito absolutamente nada, acordou as 14:00, pensou nela até as 18:00 h. (...)

Depois disso: Just Believe (IV), Último romance (V)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Despedida [Prólogo]

Eu odeio o peso que a despedida causa em mim,beberia Stella e Mojito até o céu girar e mudar de cor.

O primeiro vazio chegou acompanhado de agosto. Guardaria as mágoas entre os livros e as besteiras, mas sozinho não era possível, eu precisava de ajuda para isso. Continuei pedindo... pediu uma mão e depois a outra (...)

sábado, 20 de agosto de 2011

Um pouco de vinho tinto e um copo de desconfiança

"Amar cria raiz, sim. Cria, independente de ser verbalizado. Basta sentir o amor para que fiquemos dependentes dele, uma dependência boa, daquilo que nos faz sentir vivos." Martha Medeiros

Após o susto ela entrou no carro. Seu joelho estava ralado e ela resmungou quando ele limpou o ferimento com o lenço azul que tirou do porta luvas.
-Acho que você vai sobreviver. Disse ele e depois sorriu pra ela.
Ela paralisava e tremia com aquele sorriso lindo. Sabia que ele era especial e sorriu de volta. Entendia que a melhor forma de agradecer um sorriso é simplesmente sorrir, sem necessidades de sílabas ou frases.
Enquanto aguardavam o vinho tinto, ele foi ao banheiro. Ela pegou um guardanapo e começou rabiscar.

"Não sei se foi o acaso, mas agora que estou aqui,
quero ficar. Porém só essa noite...
Tenho medo de te ensinar a jogar uno e
 você não me ensina a acreditar que a vida vale a pena"
Giulinha

Dobrou o guardanapo entre os dedos, respirou fundo e guardou no bolso da jaqueta dele.
As luzes iluminavam o começo. Essa é sempre a melhor parte. Essa é a parte da descoberta, dos olhos límpidos e transparentes. No começo não há "aquela vez que você mentiu" e nem "desculpe-me por aquele erro".  
-Sou leonina Publicitária, trabalho em alguns projetos independentes, às vezes só as terças ou quintas, meu único vínculo e comigo mesma.
-Faço Marketing, sou de gêmeos e tenho obrigações fixas, de segunda à sexta. Mas também sei fazer lasanha e pessoas felizes. Sorriu novamente.
Entre taças de vinho tinto, cigarros e sorrisos, houve também o primeiro beijo. Adocicado, lento de início e urgente, como quem se conhecesse a algum tempo e sabe exatamente aonde quer chegar.
Trancados em um quarto escuro, corações dispostos e apressados se encontram naquele noite, entorpecidos de vinho e paixão com uma dose relaxante de amor. Aconteceu de estarem ótimos.
Já pela manhã ela o olhou e o beijou. Ele ainda dormia.
Ela estava feliz, mas tinha medo de criar raízes. Por medo decidiu ir embora.
Quando chegou em casa, ela foi direto para o chuveiro. Fez questão de lembrar todos os detalhes e sorrisos, mãos e afagos, gestos e gostos. Todos únicos.
Antes de dormir, resolveu vasculhar a bolsa, procurou a barrinha de cereal, sempre curou ansiedades assim, mas encontrou um "passaporte" escrito em um pedaço de papel.

"Talvez não queira mais me ver,
mas saiba que foi inesquecível...
Deixo você optar, mas por favor não demore muito. "
Rafael
    


Ela estava surpresa, feliz e com medo, segurou o bilhete nas mãos e dormiu. (...)

Antes disso: Cerejas e Marshmallow (I)
Depois disso: É isso (III), Just Believe (IV), Último romance (V)

domingo, 7 de agosto de 2011

Saudade


Fui só mais um cara.
Só mais um cara que acreditou no seu sorriso e tudo mais que saia de sua boca. Mais um cara que conseguiu ver verdades nos seus olhos.
Nossa noite mais feliz foi a última?
Desconhecia esse seu lado frio e sombrio, esses seus pensamento cinzas e nublados. Desconhecia essa sua outra face, afinal o geminiano sou eu, teoricamente você deveria se assustar com a minha outra face.
Teoricamente...
"Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei não é assim, mas deixa eu fingir e rir." Ainda não me acostumei com a tal da poligamia e nem sei se quero ou devo.
Desamores acontecem a vida inteira, difícil mesmo é o amor, é o cafuné na nuca verdadeiro, é o sim limpo, livre de mentiras.
Te perdoo por fazeres com que eu ainda não tenha coragem de rasgar nossas fotos. Te perdoo por fazeres eu ainda pensar em nós.
Sinto sua falta.
Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Para um antigo amor



"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te."

Friedrich Nietzsche
(...) e o meu amor você perdeu
Perdeu nessa hora
Embora o meu amor seja teu
Meu amor eu vou embora
Porque você mentiu e o seu rosto
Seu rosto se quer cora
E eu vou botar meu coração
Pra curar lá fora

(...) e o seu coração vai cair
Vai cair no chão
Sou um flor do mato
Um pé de manjericão

(...) porque você mentiu pra alguém
E essa foi meu bem
A sua maior desrazão

Vídeo: Léo Fressato e Ana Larousse - Para um antigo amor


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cereja e marshmallow

Tirou a garrafa do congelador e levou até a penteadeira, enquanto seus pensamentos voavam, suas mãos sabiam exatamente o que fazer. Com uma das mãos ela levou a garrafa até a boca e girou, com a outra descansava o cigarro no cinzeiro branco de porcelana.
Escurecia e a temperatura estava amena, era primavera, vestiu-se com seus jeans Levi’s preferido e um top preto. O salto a deixava, mais esguia e linda, mais imponente e confiante. Pôde olhar os pássaros pela janela, ao contrário deles que se recolhiam para dormir, ela estava apenas acordando para a noite.
Encarou-se pela primeira vez na noite, sorriu, estava feliz. Seu batom vermelho, aquele preferido, deslizava por seus lábios. O contraste era como cereja e marshmallow cor de pêssego.
Cantava Reckoner do Radio Head: (...)“because we separate. Like riplles on a black shore. In rainbows” (...), soltava os cabelos negros e sorria. Estava feliz por ter superado um punhado de (des)amores e sobretudo por continuar com brilhos nos olhos - estava de portas e janelas abertas para o próximo.
Sabia que a noite seria longa e resolver colocar uma barrinha de cereal, sabor castanha do pará na bolsa, seria útil caso sentisse fome quando voltasse pela manhã. Nunca foi de comer muito, mas pela manhã devorava frutas, pães, biscoitos, tomava sua xícara grande de café com leite e o que mais aparecesse pela frente.
Bebeu um gole de vokda e mexeu com a ponta dos dedos o gelo dentro do copo. Sorriu para o espelho novamente e terminou de se pintar. Colocou novamente o copo em repouso, dessa vez, pintado nas bordas com o seu batom. Pintou os cílios, as pálpebras, a boca, as maçãs do rosto, estava ótima, ao ponto de pintar o arco-íris com novas cores, mas decidiu começar pintando a noite mais feliz de sua vida.
Prendeu os belos cabelos num coque alto despojado, de forma que os fios soltos, propositalmente se espalhassem por sua nuca e costas. Colocou o celular no bolso do jeans, levantou, saiu e fechou a porta do quarto.
Terminou de beber, deixou o copo sobre a mesa e saiu.
Terminou relacionamentos, deixou romances sobre a cama e partiu.
Quando saiu do elevador, trocou meia dúzia de palavras com o porteiro antes de passar por debaixo do pé de Falamboyant e caminhar para a rua. Cinco ou seis garotos que passavam de skate entortaram o pescoço e a olharam des-fi-lar. Era um desfile.
Andava rápido, tinha horário marcado para chegar até a (feli)cidade.


Ele desligou o telefone e o computador. Já estava além do horário, precisava ir embora. Sua cabeça doía, e ele sabia que um bom banho resolveria parte do problema neurológico. Despediu-se de todos e desejou boa noite à todos.
No elevador abriu o último botão de sua camiseta pólo. Quando olhou para o celular e viu três chamadas não atendidas, resolveu desligá-lo, queria um pouco de paz.
Desceu até o subsolo e foi até o carro. Abriu a porta do passageiro e jogou sua mochila no banco traseiro. Deu a volta para a outra porta e entrou. Parecia ter pressa. Colocou a chave no contato, mas não ligou o motor. Resolveu desligar-se um minuto da realidade. Fechou os olhos e massageou as têmporas, tentava relaxar um pouco.
Olhou seu rosto pelo retrovisor, o cabelo já estava grande, precisava de corte. Não se incomodou com isso.


Ela atravessou a rua, distraída com seus pensamentos e se assustou quando ouviu o barulho do pneu do carro agredindo o asfalto. Ficou tão apavorada, achou que fosse morrer.
-Quase. Ele respirou aliviado quando percebeu que nada aconteceu.
Quando ele desceu, também assustado e apavorado, se deparou com a moça mais linda que já tinha visto em todos os seus vinte e poucos anos. Ela parecia frágil com um de seus joelhos no chão e com as pernas bambas. Suas mãos estavam frias e molhadas, foi a primeira coisa que ele percebeu quando a tocou. A segunda, com certeza foi enxergar nitidamente que ela não sairia mais de sua vida, pelo menos não pelo que dependesse dele.
-Você está bem?
-A-a-acho que sim.
Se olharam e tiveram a certeza que já se conheciam.
Ele a abraçou como quem cuidaria, ela sorriu como quem amaria. (...)

Depois disso: Um pouco de vinho tinto e um copo de desconfiança (II), É isso? (III), Just Believe (IV), Último romance (V)