quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cereja e marshmallow

Tirou a garrafa do congelador e levou até a penteadeira, enquanto seus pensamentos voavam, suas mãos sabiam exatamente o que fazer. Com uma das mãos ela levou a garrafa até a boca e girou, com a outra descansava o cigarro no cinzeiro branco de porcelana.
Escurecia e a temperatura estava amena, era primavera, vestiu-se com seus jeans Levi’s preferido e um top preto. O salto a deixava, mais esguia e linda, mais imponente e confiante. Pôde olhar os pássaros pela janela, ao contrário deles que se recolhiam para dormir, ela estava apenas acordando para a noite.
Encarou-se pela primeira vez na noite, sorriu, estava feliz. Seu batom vermelho, aquele preferido, deslizava por seus lábios. O contraste era como cereja e marshmallow cor de pêssego.
Cantava Reckoner do Radio Head: (...)“because we separate. Like riplles on a black shore. In rainbows” (...), soltava os cabelos negros e sorria. Estava feliz por ter superado um punhado de (des)amores e sobretudo por continuar com brilhos nos olhos - estava de portas e janelas abertas para o próximo.
Sabia que a noite seria longa e resolver colocar uma barrinha de cereal, sabor castanha do pará na bolsa, seria útil caso sentisse fome quando voltasse pela manhã. Nunca foi de comer muito, mas pela manhã devorava frutas, pães, biscoitos, tomava sua xícara grande de café com leite e o que mais aparecesse pela frente.
Bebeu um gole de vokda e mexeu com a ponta dos dedos o gelo dentro do copo. Sorriu para o espelho novamente e terminou de se pintar. Colocou novamente o copo em repouso, dessa vez, pintado nas bordas com o seu batom. Pintou os cílios, as pálpebras, a boca, as maçãs do rosto, estava ótima, ao ponto de pintar o arco-íris com novas cores, mas decidiu começar pintando a noite mais feliz de sua vida.
Prendeu os belos cabelos num coque alto despojado, de forma que os fios soltos, propositalmente se espalhassem por sua nuca e costas. Colocou o celular no bolso do jeans, levantou, saiu e fechou a porta do quarto.
Terminou de beber, deixou o copo sobre a mesa e saiu.
Terminou relacionamentos, deixou romances sobre a cama e partiu.
Quando saiu do elevador, trocou meia dúzia de palavras com o porteiro antes de passar por debaixo do pé de Falamboyant e caminhar para a rua. Cinco ou seis garotos que passavam de skate entortaram o pescoço e a olharam des-fi-lar. Era um desfile.
Andava rápido, tinha horário marcado para chegar até a (feli)cidade.


Ele desligou o telefone e o computador. Já estava além do horário, precisava ir embora. Sua cabeça doía, e ele sabia que um bom banho resolveria parte do problema neurológico. Despediu-se de todos e desejou boa noite à todos.
No elevador abriu o último botão de sua camiseta pólo. Quando olhou para o celular e viu três chamadas não atendidas, resolveu desligá-lo, queria um pouco de paz.
Desceu até o subsolo e foi até o carro. Abriu a porta do passageiro e jogou sua mochila no banco traseiro. Deu a volta para a outra porta e entrou. Parecia ter pressa. Colocou a chave no contato, mas não ligou o motor. Resolveu desligar-se um minuto da realidade. Fechou os olhos e massageou as têmporas, tentava relaxar um pouco.
Olhou seu rosto pelo retrovisor, o cabelo já estava grande, precisava de corte. Não se incomodou com isso.


Ela atravessou a rua, distraída com seus pensamentos e se assustou quando ouviu o barulho do pneu do carro agredindo o asfalto. Ficou tão apavorada, achou que fosse morrer.
-Quase. Ele respirou aliviado quando percebeu que nada aconteceu.
Quando ele desceu, também assustado e apavorado, se deparou com a moça mais linda que já tinha visto em todos os seus vinte e poucos anos. Ela parecia frágil com um de seus joelhos no chão e com as pernas bambas. Suas mãos estavam frias e molhadas, foi a primeira coisa que ele percebeu quando a tocou. A segunda, com certeza foi enxergar nitidamente que ela não sairia mais de sua vida, pelo menos não pelo que dependesse dele.
-Você está bem?
-A-a-acho que sim.
Se olharam e tiveram a certeza que já se conheciam.
Ele a abraçou como quem cuidaria, ela sorriu como quem amaria. (...)

Depois disso: Um pouco de vinho tinto e um copo de desconfiança (II), É isso? (III), Just Believe (IV), Último romance (V)


3 comentários:

. Nadine disse...

Nossa! Abri um grande sorriso ao terminar de ler! =D É lindo. Vai ter continuação né? rs

Gostei disso "(feli)cidade", também faço isso as vezes, transformo uma palavra em duas, duas em uma rs. Me prendi no jeito que você detalhou eles dois. Ahh, muito lindo! =*

Eder Fabricio disse...

Continuação? Não sei ainda... preciso me inspirar, rs. Fico contente com as suas palavras. De verdade. Obrigado =D

. Nadine disse...

Espero que chegue a inspiração.
Ahh, de nada =) Tô falando a verdade rs. E obrigada pelo comentário no meu blog, eu adorei o que disse.