Esses dias me deparei com questões sobre ser intenso ou não na entrega de si mesmo em romances ao longo da vida. Para ficar claro, sim, eu já tive muito medo de me relacionar e nem sempre fui intenso, por própria defesa (já acreditei que corações gelados sofrem menos), já tive pavor de olhar retrospectos ou medo do fim, medo simplesmente de não dar certo. Será que sobreviveria? Existiria vida pós você? [...]
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
O peso do 'até um dia' - Parte 2
"Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro." Leonardo da Vinci
Não me recordo ao certo como tudo começou, lembro que foi teclando em uma sala qualquer de bate papo. Após algumas frases, evoluímos para o messenger e posteriormente para redes sociais.
Não me aventuro muito nas madrugadas conversando com desconhecidos, mas às vezes funciona como válvula de escape, funciona para fugir do tédio.
As chances de encontrar alguém interessante? Eu diria que menos de 5%. Lembro que uma vez marquei um encontro (por favor, se forem marcar dessas aventuras, que seja em locais públicos e movimentados) e fui surpreendido por um ser que, definitivamente, não era desse planeta. Eu tinha uns vite e três anos, já a figura era um horror, meio vintage, com a idade avançada, jeans cintura alta surrado (hoje em dia o jeans cintura alta voltou e 'está em alta'-trocadilho caiu como uma luva- mas naquela época, só as sogras usavam) e acreditem, jaqueta de couro preta em pleno calor de uns trinta graus. Detalhe importante: pilotava uma moto mais surrada que o jeans e não era, absolutamente, nada do que parecia pela tela do meu computador. Claro que fingi que o meu celular tocou e que eu precisava ir embora, fiz isso depois dos quinze minutos mais demorados da minha vida. Dez minutos para ser sincero, esse foi o tempo para eu me livrar do 'presente grego' que eu havia ganho naquela tarde ensolarada de sábado.
Mas dessa vez eu sentia que era diferente, tinha encontrado alguém especial e eu estava disposto a esquecer o episódio anterior e manter uma relação a princípio de amigos.
Lembro que na época morava em São Paulo também, o que facilitaria o encontro. Lembro que conversamos muito breve pelo celular, não me recordo do porque de não termos nos encontrados pessoalmente. Talvez na época por alguma incompatibilidade de ... bom, realmente não me lembro, mas acho que pelo fluxo natural que a vida segue. Eu na Zona Oeste e o outro lado da tela estava no extremo da cidade, na Zona Leste.
Segui minha vida, me relacionei com outras pessoas, conheci mais outras tantas no bate papo (nada que valesse a pena relatar duas linhas de texto) e a nossa amizade ficou guardada, ali no hall de amigos virtuais.
Por vez ou outra conversávamos, era raro, mas em todas as conversas a cumplicidade e a verdade, de ambas as partes, prevaleciam, era bem bacana. Passaram-se os anos, migramos de rede social, porém o contato continuava. Foram ao todo uns três anos, só para depois acontecer o encontro.
Tinha voltado para a sua cidade -em outro estado- o que teoricamente, transformava o encontro menos viável (tempo, espaço e grana).
Entre conversas que se tornaram mais frequentes no último ano, houve um convite: me chamou para conhecer sua cidade. Amadurecemos a idéia durante dois meses. Eu estava decidido a ir.
sábado, 19 de novembro de 2011
Palavras guardadas
"As coisas mais importantes são as mais difíceis de se expressar. São as coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem. As palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que isso, não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas te olharão de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse, e nem entenderão porque eram tão importantes que você quase chorou enquanto estava falando. Mas na minha opinião, o pior é quando o segredo fica trancado lá dentro, não por falta de um narrador, mas por falta de alguém que o compreenda."
Stephen King
A primavera foi passando quase sem ser notada, como costumava acontecer com ele e com a pacata cidade. O despertar prematuro continuou e, quando as cores do verão começaram a esbrasear as árvores ao longo da avenida principal, ele estava abrindo os olhos por volta das cinco e trinta da manhã.
Colocava suas calças de moletom branca, por vez ou outra escolhia uma camiseta azul ou verde, mas na maioria das vezes era branca também. O tênis de corrida já ficava separado desde a noite anterior. Asim ele perdia no máximo dez minutos até chegar a cozinha para comer sua maçã e sair para a caminhada. Levava apenas uma ou duas barrinhas de cereais no bolso e um squeeze de alumínio com água.
Naquele dia, caminhou mais longe pela avenida principal do que de costume, possivelmente porque as nuvens de tempestade tinham escondido o sol e começara a soprar uma brisa fresca, ainda que inconstante. Ele mergulhava em uma espécie de transe, sem pensar em nada, sem olhar para nada exceto as pontas empoeiradas dos seus tênis. Talvez fosse o som alto, sempre que corria ouvia algum rock and roll (a banda escolhida para aquela semana foi a Interpol) e era quase teletransportado. Foi só com o avião em direção ao aeroporto que ele retornou ao presente, o silvo aterrador de suas turbinas foi mais alto que o rock e o trouxe para o mundo. Observou o avião, ainda alto, cruzar a praça inteira em uma curva de 90°, observou-o baixar em direção a pista do aeroporto.
Sempre descansava naquela praça. O local era mais alto do que toda a cidade, era rota do aeroporto e os aviões passavam baixos por lá. Havia uma energia incrível ali: centenas de arranhas céus pequenininhos ao horizonte, o pôr do sol incomparável, os casais que por ali passarinhavam, os adolescentes com seus skates, madames com seus poodles brancos recém saídos do Pet Shop e casais fotografando a vida. Tudo isso o transportava do mundo agitado e cheio de cobranças, tudo isso lhe trazia uma tranquilidade indescritível.
Por vezes, ela estava lá também, lendo seus livros. Ele se esforçara para ver o título, tinha curiosidade sobre seu gosto literário, passava algumas vezes por ela na esperança de ouvi-la (nunca aconteceu e ele só entendeu meses depois). Lembrou-se de uma vez vê-la ler Stephen King. Foi a primeira afinidade.
A noite, ficava uma, às vezes duas horas pensando nela, deitado na cama, enquanto o sono teimava em não vir. Imaginava diálogos e sorrisos envoltos a livros e lençóis.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Estrella
A proa rasgava a imensidão de água verde e mansa, o céu parecia pintado de azul com detalhes de algodão umedecido em tinta branca. O calor era típico de verão, mas ainda era setembro e mal chegara a primavera.
Ergueu as velas amarelas pela manhã, antes sequer de passar na padaria do português Manoel para tomar o seu café com leite e seu pão na chapa.
A popa trazia o nome Estella pintado em letras garrafais e sempre que lhe perguntavam se era um amor antigo ou simplesmente um nome que gostava, ele mudava de assunto. Falava das ressacas marítimas, das costas pesqueiras do leste ou dos seus planos de viajar sem exatamente ter um plano.
Quando conheceu Valentina, tinha 25 anos. Tinha os olhos verdes e os cabelos encaracolados claros, nem muito curto e nem muito longo, tinha porte de galã hollywoodiano, desses escalados para interpretar o mocinho do filme de maior indicação ao Oscar do ano, o que lhe rendia alguns (des)amores pelos mares onde navegava. Se vestia sempre com um mocassim, bermudas caquis e camisetas polo (em todas as ocasiões, impecavelmente engomado e sem marcas nas peças), sua autoridade à bordo, como capitão, era notória e natural.
Dentro do convés, com seus cabelos grisalhos, meio século de idade e os olhos tristes, olhou o sol sobre o azul, depois para a bússula, com mais nostalgia e intensidade ancorou os olhos ao porta retrato.
Quando conheceu Laura estava na marinha, tinha dispensa naquela sexta e decidiu sair com mais dois ou três marinheiros. Foram beber em um cabaré perto do porto de Itajaí. Comemoravam os 19... dezenove anos, dezenove amores por mês, o horário de dispensa (também às 19:00h) e outros 19 que não vem ao caso. Sempre com 19 cervejas.
Laura se hipnotizou fácil com o uniforme branco da marinha e terminou na cabine, sob o convés.
Quando lhe perguntou sobre seus planos, ele disse apenas que era ser levado pela maré.
Conheceu Beatriz na noite que começou limpa e cheia de estrelas e terminou com chuva, vinho branco, cheiros e gostos. A ressaca derrubou a garrafa e eles riram embriagados de amor e sexo. Tinha 33 anos e sonhos enumerados de 1 à 10, queria realizar todos.
Quando lhe perguntou sobre seus planos, ele disse que era casar, ter uma família grande, com cinco filhos e três cachorros, queria também um aquário com carpas decorando a sala de estar.
Aos 42, as medalhas no uniforme enobreciam seu caráter, havia também uma coleção de amores pelo porto de Cabedelo. Sempre passava 1 semana por lá, visitava amigos, lugares e pessoas. Quando pediu Cíntia pela décima nona vez em namoro ela disse que o amaria e desamaria, quantas vezes fossem necessárias, mas já tinha o lado da cama e o dedo anelar esquerdo, ocupados.
Conheceu Fabíolas, Anas, Bárbaras, Fernandas e Cláudias. Guardaria quantos amores coubessem no bolso, até ELA aparecer.
sábado, 20 de agosto de 2011
Um pouco de vinho tinto e um copo de desconfiança
"Amar cria raiz, sim. Cria, independente de ser verbalizado. Basta sentir o amor para que fiquemos dependentes dele, uma dependência boa, daquilo que nos faz sentir vivos." Martha Medeiros
Após o susto ela entrou no carro. Seu joelho estava ralado e ela resmungou quando ele limpou o ferimento com o lenço azul que tirou do porta luvas.
-Acho que você vai sobreviver. Disse ele e depois sorriu pra ela.
Ela paralisava e tremia com aquele sorriso lindo. Sabia que ele era especial e sorriu de volta. Entendia que a melhor forma de agradecer um sorriso é simplesmente sorrir, sem necessidades de sílabas ou frases.
Enquanto aguardavam o vinho tinto, ele foi ao banheiro. Ela pegou um guardanapo e começou rabiscar.
"Não sei se foi o acaso, mas agora que estou aqui,
quero ficar. Porém só essa noite...
quero ficar. Porém só essa noite...
Tenho medo de te ensinar a jogar uno e
você não me ensina a acreditar que a vida vale a pena"
você não me ensina a acreditar que a vida vale a pena"
Giulinha
Dobrou o guardanapo entre os dedos, respirou fundo e guardou no bolso da jaqueta dele.
As luzes iluminavam o começo. Essa é sempre a melhor parte. Essa é a parte da descoberta, dos olhos límpidos e transparentes. No começo não há "aquela vez que você mentiu" e nem "desculpe-me por aquele erro".
-Sou leonina Publicitária, trabalho em alguns projetos independentes, às vezes só as terças ou quintas, meu único vínculo e comigo mesma.
-Faço Marketing, sou de gêmeos e tenho obrigações fixas, de segunda à sexta. Mas também sei fazer lasanha e pessoas felizes. Sorriu novamente.
Entre taças de vinho tinto, cigarros e sorrisos, houve também o primeiro beijo. Adocicado, lento de início e urgente, como quem se conhecesse a algum tempo e sabe exatamente aonde quer chegar.
Trancados em um quarto escuro, corações dispostos e apressados se encontram naquele noite, entorpecidos de vinho e paixão com uma dose relaxante de amor. Aconteceu de estarem ótimos.
Já pela manhã ela o olhou e o beijou. Ele ainda dormia.
Já pela manhã ela o olhou e o beijou. Ele ainda dormia.
Ela estava feliz, mas tinha medo de criar raízes. Por medo decidiu ir embora.
Quando chegou em casa, ela foi direto para o chuveiro. Fez questão de lembrar todos os detalhes e sorrisos, mãos e afagos, gestos e gostos. Todos únicos.
Antes de dormir, resolveu vasculhar a bolsa, procurou a barrinha de cereal, sempre curou ansiedades assim, mas encontrou um "passaporte" escrito em um pedaço de papel.
"Talvez não queira mais me ver,
mas saiba que foi inesquecível...
mas saiba que foi inesquecível...
Deixo você optar, mas por favor não demore muito. "
Rafael
Rafael
Ela estava surpresa, feliz e com medo, segurou o bilhete nas mãos e dormiu. (...)
Antes disso: Cerejas e Marshmallow (I)
Depois disso: É isso (III), Just Believe (IV), Último romance (V)
Depois disso: É isso (III), Just Believe (IV), Último romance (V)
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Cereja e marshmallow
Tirou a garrafa do congelador e levou até a penteadeira, enquanto seus pensamentos voavam, suas mãos sabiam exatamente o que fazer. Com uma das mãos ela levou a garrafa até a boca e girou, com a outra descansava o cigarro no cinzeiro branco de porcelana.
Escurecia e a temperatura estava amena, era primavera, vestiu-se com seus jeans Levi’s preferido e um top preto. O salto a deixava, mais esguia e linda, mais imponente e confiante. Pôde olhar os pássaros pela janela, ao contrário deles que se recolhiam para dormir, ela estava apenas acordando para a noite.
Encarou-se pela primeira vez na noite, sorriu, estava feliz. Seu batom vermelho, aquele preferido, deslizava por seus lábios. O contraste era como cereja e marshmallow cor de pêssego.
Cantava Reckoner do Radio Head: (...)“because we separate. Like riplles on a black shore. In rainbows” (...), soltava os cabelos negros e sorria. Estava feliz por ter superado um punhado de (des)amores e sobretudo por continuar com brilhos nos olhos - estava de portas e janelas abertas para o próximo.
Sabia que a noite seria longa e resolver colocar uma barrinha de cereal, sabor castanha do pará na bolsa, seria útil caso sentisse fome quando voltasse pela manhã. Nunca foi de comer muito, mas pela manhã devorava frutas, pães, biscoitos, tomava sua xícara grande de café com leite e o que mais aparecesse pela frente.
Bebeu um gole de vokda e mexeu com a ponta dos dedos o gelo dentro do copo. Sorriu para o espelho novamente e terminou de se pintar. Colocou novamente o copo em repouso, dessa vez, pintado nas bordas com o seu batom. Pintou os cílios, as pálpebras, a boca, as maçãs do rosto, estava ótima, ao ponto de pintar o arco-íris com novas cores, mas decidiu começar pintando a noite mais feliz de sua vida.
Prendeu os belos cabelos num coque alto despojado, de forma que os fios soltos, propositalmente se espalhassem por sua nuca e costas. Colocou o celular no bolso do jeans, levantou, saiu e fechou a porta do quarto.
Terminou de beber, deixou o copo sobre a mesa e saiu.
Terminou relacionamentos, deixou romances sobre a cama e partiu.
Quando saiu do elevador, trocou meia dúzia de palavras com o porteiro antes de passar por debaixo do pé de Falamboyant e caminhar para a rua. Cinco ou seis garotos que passavam de skate entortaram o pescoço e a olharam des-fi-lar. Era um desfile.
Andava rápido, tinha horário marcado para chegar até a (feli)cidade.
Ele desligou o telefone e o computador. Já estava além do horário, precisava ir embora. Sua cabeça doía, e ele sabia que um bom banho resolveria parte do problema neurológico. Despediu-se de todos e desejou boa noite à todos.
No elevador abriu o último botão de sua camiseta pólo. Quando olhou para o celular e viu três chamadas não atendidas, resolveu desligá-lo, queria um pouco de paz.
Desceu até o subsolo e foi até o carro. Abriu a porta do passageiro e jogou sua mochila no banco traseiro. Deu a volta para a outra porta e entrou. Parecia ter pressa. Colocou a chave no contato, mas não ligou o motor. Resolveu desligar-se um minuto da realidade. Fechou os olhos e massageou as têmporas, tentava relaxar um pouco.
Olhou seu rosto pelo retrovisor, o cabelo já estava grande, precisava de corte. Não se incomodou com isso.
Ela atravessou a rua, distraída com seus pensamentos e se assustou quando ouviu o barulho do pneu do carro agredindo o asfalto. Ficou tão apavorada, achou que fosse morrer.
-Quase. Ele respirou aliviado quando percebeu que nada aconteceu.
Quando ele desceu, também assustado e apavorado, se deparou com a moça mais linda que já tinha visto em todos os seus vinte e poucos anos. Ela parecia frágil com um de seus joelhos no chão e com as pernas bambas. Suas mãos estavam frias e molhadas, foi a primeira coisa que ele percebeu quando a tocou. A segunda, com certeza foi enxergar nitidamente que ela não sairia mais de sua vida, pelo menos não pelo que dependesse dele.
-Você está bem?
-A-a-acho que sim.
Se olharam e tiveram a certeza que já se conheciam.
Ele a abraçou como quem cuidaria, ela sorriu como quem amaria. (...)
Depois disso: Um pouco de vinho tinto e um copo de desconfiança (II), É isso? (III), Just Believe (IV), Último romance (V)
Depois disso: Um pouco de vinho tinto e um copo de desconfiança (II), É isso? (III), Just Believe (IV), Último romance (V)
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