sábado, 19 de novembro de 2011

Palavras guardadas

"As coisas mais importantes são as mais difíceis de se expressar. São as coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem. As palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que isso, não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas te olharão de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse, e nem entenderão porque eram tão importantes que você quase chorou enquanto estava falando. Mas na minha opinião, o pior é quando o segredo fica trancado lá dentro, não por falta de um narrador, mas por falta de alguém que o compreenda."  
Stephen King
A primavera foi passando quase sem ser notada, como costumava acontecer com ele e com a pacata cidade. O despertar prematuro continuou e, quando as cores do verão começaram a esbrasear as árvores ao longo da avenida principal, ele estava abrindo os olhos por volta das cinco e trinta da manhã.
Colocava suas calças de moletom branca, por vez ou outra escolhia uma camiseta azul ou verde, mas na maioria das vezes era branca também. O tênis de corrida já ficava separado desde a noite anterior. Asim ele perdia no máximo dez minutos até chegar a cozinha para comer sua maçã e sair para a caminhada. Levava apenas uma ou duas barrinhas de cereais no bolso e um squeeze de alumínio com água.

Naquele dia, caminhou mais longe pela avenida principal do que de costume, possivelmente porque as nuvens de tempestade tinham escondido o sol e começara a soprar uma brisa fresca, ainda que inconstante. Ele mergulhava em uma espécie de transe, sem pensar em nada, sem olhar para nada exceto as pontas empoeiradas dos seus tênis. Talvez fosse o som alto, sempre que corria ouvia algum rock and roll (a banda escolhida para aquela semana foi a Interpol) e era quase teletransportado. Foi só com o avião em direção ao aeroporto que ele retornou ao presente, o silvo aterrador de suas turbinas foi mais alto que o rock e o trouxe para o mundo. Observou o avião, ainda alto, cruzar a praça inteira em uma curva de 90°, observou-o baixar em direção a pista do aeroporto.
Sempre descansava naquela praça. O local era mais alto do que toda a cidade, era rota do aeroporto e os aviões passavam baixos por lá. Havia uma energia incrível ali: centenas de arranhas céus pequenininhos ao horizonte, o pôr do sol incomparável, os casais que por ali passarinhavam, os adolescentes com seus skates, madames com seus poodles brancos recém saídos do Pet Shop e casais fotografando a vida. Tudo isso o transportava do mundo agitado e cheio de cobranças, tudo isso lhe trazia uma tranquilidade indescritível. 

Por vezes, ela estava  lá também, lendo seus livros. Ele se esforçara para ver o título, tinha curiosidade sobre seu gosto literário, passava algumas vezes por ela na esperança de ouvi-la (nunca aconteceu e ele só entendeu meses depois). Lembrou-se de uma vez vê-la ler Stephen King. Foi a primeira afinidade.
A noite, ficava uma, às vezes duas horas pensando nela, deitado na cama, enquanto o sono teimava em não vir. Imaginava diálogos e sorrisos envoltos a livros e lençóis. 
(...)

8 comentários:

SilverLux (Éverton) disse...

Que momento lindo meu amigo! Um desejo sutil, singelo e bom... obrigado por compartilhar esse sonho/conto bom!

Mari disse...

Adorei o começo... aguardando ansiosa a continuação (tem, né?)

Beijo!

J Araújo disse...

Gostei do conto, vc sabe muito bem tecer um enredo. Parabéns!!

Abraço

RENATO VIDAL S. disse...

Eder mi gran amigo tantas lunas y soles sin pasar por vuestro espacio, esta historia es particularmente hermosa, tiene contrastes que llevan a pensar varias cosas, usted si sabe como escribir una vida, usted si sabe como rescatar lo que el resto no percibe, esperando la segunda parte obviamente, un gran abrazo.-

Luna Sanchez disse...

Eder : NÃO PARA!

Continua, eu tô gostando, quero mais!

;)

Beijos.

Eder Fabricio disse...

Éverton obrigado pela palavras rapaz.

Mari... continuarei..rs Beijo.

J Araújo, obrigado pelas palavras.

Renato, vê se não demora voltar... obrigado pelo carinho. Abraço.

Luna... continuo ;D

Luna Sanchez disse...

Isso...Adoro ritmo!

=)

Ruanna disse...

nossaaa que vontade de continuar lendo esse texto...que pena q acabou rsrs #leituragostosa