sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O peso do 'até um dia' - Parte 3

A mistura das almas quando embarcamos para amar o desconhecido, é algo que me encanta.

Na noite que antecedeu a viagem eu dormi pouco, a ansiedade sempre foi um dos meus pontos francos. Imaginei situações, lugares, gestos, sorrisos... imaginei como me portaria diante a vários acontecimentos: Situação A me levaria a fazer tal coisa, situação B me levaria a fazer outra coisa e acreditem, existia a situação C, D, E e F, todas com pelo menos, umas três alternativas de rota.
Acordei bem cedo, o vôo estava marcado para seis e trinta da manhã. Na mochila pouca coisa: um jeans, algumas bermudas e camisetas, perfume e apetrechos de higiene pessoal e muita coragem para visitar um desconhecido.

Quando entrei no avião, o friozinho na barriga não era pela decolagem ou pouso, havia mais. Era um misto de ansiedade, sonho quase realizado, felicidade pela coragem, concretização de um projeto que contei para muitos amigos, mas que parte deles não acreditavam. Foi tudo muito rápido e as sete e trinta eu estava lá, em terras desconhecidas, em solo estranho e sem nenhum resquício de medo ou arrependimento.
Somente eu estava de férias, então na sexta feira até as cinco da tarde eu ficaria sozinho. Trabalhava no aeroporto da cidade visitada e sua casa ficava a uma caminhada de dez minutos. Sai do pequenino aeroporto para respirar o ar da nova cidade, um novo 'eu' nascia ali, problemas e familiares estavam todos em São Paulo.
Peguei o celular para avisar que já tinha chego. Enquanto chamava eu vi 'meus-olhos-azuis' na minha frente. Reconheci com facilidade, parecia tão familiar e era exatamente como eu tinha projetado. Antes de atender o celular olhou para mim  e também me reconheceu. Veio até mim.

Nos cumprimentamos com um abraço tímido e fomos para sua casa, eu ficaria lá sozinho até o final da tarde. Conversamos no caminho sobre algumas coisas que não me recordo ao certo, eu não conseguia absorver absolutamente nada da conversa, estava em êxtase e quase nem sentia os meus pés no chão enquanto caminhava. O tempo estava nublado e a cidade era muito pequena, tinha aspecto de uma cidade interiorana do meu estado.
Quando fechou a porta da sua casa eu não resisti, empurrei contra a parede -com cuidado para não machucar- e beijei sua boca. Nossas respirações estavam ofegantes. Segurei pela nuca, toquei as costas e quadril. Tirei a mochila das costas e pendurei meu casaco no cabideiro e depois voltei mais leve para seus braços. A sincronia era gostosa, as mãos sabiam qual caminho percorrer. Abri o botão do meu jeans.
Peguei como não havia experimentado ainda, tinha desejo em demasia e eu quase podia sentir o cheiro do cio. 
-Calma guri, tu tá muito rápido.
Eis uma coisa que me deixa entregue: o sotaque do sul. Existe sotaque  mais bonito? Esse pessoal fala cantando, diz 'tú' ao invés de você, diz 'contigo' ao invés de com você. Tem frases como 'te faz', 'tô de cara' ou 'bota o troço ali', falam guri ao invés de garoto, colono ao invés de caipira entre outros. O dialeto me encanta.
Sorrimos e eu precisava me desgrudar. Disse para eu ficar a vontade, que a casa era minha pelos próximos três dias, me entregou as chaves e voltou para o trabalho.

Eu estava morto de sono, mas não conseguia dormi. Liguei a TV para me distrair. 
Passeei  pelo armário, olhei e toquei sua camisetas, cheirei também. Olhei camisas, calças, olhei os perfumes... reconheci o cheiro do seu pescoço em um dos frascos, tinha todo o cuidado de deixar tudo onde exatamente estava. O que pensaria se chegasse em casa e percebesse que um estanho havia mexido em todas as suas coisas? Olhei a gaveta de meias e roupas íntimas, tudo metodicamente separado por cores e dobrados de forma harmoniosa. Em uma parte do armário, havia brinquedos antigos de sua infância, sorri mudo. Olhei a estante com uma centena de DVD's e uns cinquenta Blu-Ray, observei alguns títulos em comum com a minha coleção, olhei o porta retrato pequeno com sua foto, ainda bebê, e por último observei um trem de madeira colorido, que a cada vagão carregava uma letra, formando assim as três primeiras letras do seu nome. Bati uma foto, eu queria conhecer e registrar, estava explorando as possíveis formas.
Deitei na cama e tentei pegar no sono. Assisti por alguns minutos um seriado qualquer da Warner e adormeci.
(...)

3 comentários:

Luna Sanchez disse...

Viajando nas entrelinhas aqui...Adorando o relato.

[E tentando imaginar como seria o nome, com base nas três primeiras letras e na ausência dos pronomes retos.]

Beijos, Eder.

Marcela Alves disse...

aiii que lindooo. To loka para saber o resto... ;p

beijos

Eder Fabricio disse...

Luna... rs então está adorando? Que bom... estou contando isso com tanta rapidez, está fluindo fácil sabe? Me sinto bem quando recordo e escrevo esse capítulo da minha vida.
Beijos.

Marcela obrigado. Estou postando essa estória com mais rapidez do que de costume, não vou interromper para escrever nada paralelo... não vale a pena por enquanto. Beijos.