sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Estrella


A proa rasgava a imensidão de água verde e mansa, o céu parecia pintado de azul com detalhes de algodão umedecido em tinta branca. O calor era típico de verão, mas ainda era setembro e mal chegara a primavera. 
Ergueu as velas amarelas pela manhã, antes sequer de passar na padaria do português Manoel para tomar o seu café com leite e seu pão na chapa.
A popa trazia o nome Estella pintado em letras garrafais e sempre que lhe perguntavam se era um amor antigo ou simplesmente um nome que gostava, ele mudava de assunto. Falava das ressacas marítimas, das costas pesqueiras do leste ou dos seus planos de viajar sem exatamente ter um plano.

Quando conheceu Valentina, tinha 25 anos. Tinha os olhos verdes e os cabelos encaracolados claros, nem muito curto e nem muito longo, tinha porte de galã hollywoodiano, desses escalados para interpretar o mocinho do filme de maior indicação ao Oscar do ano, o que lhe rendia alguns (des)amores pelos mares onde navegava. Se vestia sempre com um mocassim, bermudas caquis e camisetas polo (em todas as ocasiões, impecavelmente engomado e sem marcas nas peças), sua autoridade à bordo, como capitão, era notória e natural.

Dentro do convés, com seus cabelos grisalhos, meio século de idade e os olhos tristes, olhou o sol sobre o azul, depois para a bússula,  com mais nostalgia e intensidade ancorou os olhos ao porta retrato.

Quando conheceu Laura estava na marinha, tinha dispensa naquela sexta e decidiu sair com mais dois ou três marinheiros. Foram beber em um cabaré perto do porto de Itajaí. Comemoravam os 19... dezenove anos, dezenove amores por mês, o horário de dispensa (também às 19:00h) e outros 19 que não vem ao caso. Sempre com 19 cervejas.
Laura se hipnotizou fácil com o uniforme branco da marinha e terminou na cabine, sob o convés. 
Quando lhe perguntou sobre seus planos, ele disse apenas que era ser levado pela maré.

Conheceu Beatriz na noite que começou limpa e cheia de estrelas e terminou com chuva, vinho branco, cheiros e gostos. A ressaca derrubou a garrafa e eles riram embriagados de amor e sexo. Tinha 33 anos e sonhos enumerados de 1 à 10, queria realizar todos.
Quando lhe perguntou sobre seus planos, ele disse que era casar, ter uma família grande, com cinco filhos e três cachorros, queria também um aquário com carpas decorando a sala de estar.

Aos 42, as medalhas no uniforme enobreciam seu caráter, havia também uma coleção de amores pelo porto de Cabedelo. Sempre passava 1 semana por lá, visitava amigos, lugares e pessoas. Quando pediu Cíntia pela décima nona vez em namoro ela disse que o amaria e desamaria, quantas vezes fossem necessárias, mas já tinha o lado da cama e o dedo anelar esquerdo, ocupados.

Conheceu Fabíolas, Anas, Bárbaras, Fernandas e Cláudias. Guardaria quantos amores coubessem no bolso, até ELA aparecer.

Aos 60, a maresia desgastou o marinheiro. Haviam rugas e um semblante cansado de esperar. Checou a latitude e longitude dos seus sentimentos, estava exausto quando olhou para a mais brilhante Estrella, aquela que sempre esperou, aquela que nunca mais apareceu.

6 comentários:

. Nadine disse...

Deve haver sempre um amor que repousa por dentro, que fica preso a memória. Passam-se os anos, jamais o amor.

Eu achei simplesmente incrível, a história, a forma como você escreveu, a maneira que você me prende nos detalhes, no encantamento das tuas palavras.

Eder Fabricio disse...

Minha flor de maracujá... Suas palavras me deixam sem palavras. rs
Te admiro tanto, escreve textos lindos e é dona de uma personalidade incrível.
Obrigado! =D

Beijo

Obs.: Alguém me deve metade de um texto.

. Nadine disse...

Obrigada meu Briccio (e da Dani também), mas eu é que tenho que fazer elogios a você rs.

:x Pois é, mas é só minhas provas passarem, que termino de escrever pra você :D

Beijo.

Luna Sanchez disse...

E mais uma vez o amor prova que é impontual, que não se deixa encontrar entre 19 cervejas, 10 sonhos, 5 filhos ou 33 anos. Aparece quando acha que deve e em geral escolhe horas e lugares improváveis.

Mesmo negando, vivemos para, por e em busca dele e ainda assim, quanta ironia, o danado nos pega de surpresa.

Gostosíssimo o texto, bonito, sentido, profundo.

Parabéns e um beijo meu, Eder.

Eder Fabricio disse...

Luna minha querida, obrigado pelas palavras.
Impontual meeeesmo, eu que o diga, aguardo ele faz um tempão, quem sabe ele apareça assim com quem não quer nada, numa terça feira de chuva.

Beijos

Luna Sanchez disse...

Numa terça-feira de chuva? Huuummmm...Convém verificar a previsão do tempo pra amanhã, aí na tua região. Vai que...néam?

;)

Beijo.