sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Com pimenta, menta e manjericão


Passei as mãos por sua nuca, percorri detalhadamente suas costas, toquei seus cabelos. Não foi suficiente, cheirei seu pescoço e beijei-lhe a boca. Várias vezes. Beijos de urgência, de desejo, desses que incendeiam a alma, desses que se nota na saliência da cueca que tudo está no caminho certo, desses que te fazem tremer as pernas, suar as mãos, beijos memoráveis (que nos acompanham por semanas, beijos que queremos repetir a dose: a dose de prazer, a dose da saliva, a dose diária de você).
Mãos desbravavam tudo. Percorriam caminhos sob a camiseta, passeavam pelo tórax e costas, exploravam o íntimo, descobriam corpos... Saturno era personagem secundário, assim como todo o resto do universo.
Respirava desejo, na boca o gosto de saliva, do suor salgado, gosto do pecado, do sexo...

Eis um dado importante:
Na minha boca, além de todos esses gostos, tinha o SEU gosto, 
e isso para mim era o suficiente.

...o rosto estava vermelho, de calor, de atrito da barba -não se importou.
Mordi os ombros claros, apertei-me contra seu corpo para ficarmos bem juntos, para sentir a temperatura, o peso, para sentir a pele molhada, para se transformar em um só.

Eis outro dado importante:
Ah se você soubesse quanto amor eu ainda tinha tenho pra nós, e o melhor, 
se acreditasse nele, tenho certeza que voltaria correndo amanhã.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mister Sandman - Pomplamoose


Sr. Sandman, traga-me um sonho
Faça dele o mais lindo que eu já vi
Dê-lhe dois lábios como rosas e trevos
E diga-lhe que suas noites de solidão se acabaram.
Sandman, eu estou tão solitário
Não tenho nenhum amor para chamar de meu
Por favor, ligue o seu feixe de magia
Sr. Sandman,traga-me um sonho.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Primeiro Vazio


O piano não trazia mais suas belas melodias, os sonhos do guri estavam picados como papéis velhos e sem importância, os olhos estavam úmidos, turvos e distantes, de tantas ilusões e decepções. Tudo se tornou cinza e gelado. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Jaz [Introdução]

"Me cheira como se eu fosse Tanqueray."

Eu apenas disse adeus com palavras, morri uma centena de vezes depois que você se foi e continuo de luto.
Me enganei como sabia que me enganaria...
Eu tentava transformar um sonho cremado prematuramente em algo com o nosso antigo brilho. Impossível.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Estrella


A proa rasgava a imensidão de água verde e mansa, o céu parecia pintado de azul com detalhes de algodão umedecido em tinta branca. O calor era típico de verão, mas ainda era setembro e mal chegara a primavera. 
Ergueu as velas amarelas pela manhã, antes sequer de passar na padaria do português Manoel para tomar o seu café com leite e seu pão na chapa.
A popa trazia o nome Estella pintado em letras garrafais e sempre que lhe perguntavam se era um amor antigo ou simplesmente um nome que gostava, ele mudava de assunto. Falava das ressacas marítimas, das costas pesqueiras do leste ou dos seus planos de viajar sem exatamente ter um plano.

Quando conheceu Valentina, tinha 25 anos. Tinha os olhos verdes e os cabelos encaracolados claros, nem muito curto e nem muito longo, tinha porte de galã hollywoodiano, desses escalados para interpretar o mocinho do filme de maior indicação ao Oscar do ano, o que lhe rendia alguns (des)amores pelos mares onde navegava. Se vestia sempre com um mocassim, bermudas caquis e camisetas polo (em todas as ocasiões, impecavelmente engomado e sem marcas nas peças), sua autoridade à bordo, como capitão, era notória e natural.

Dentro do convés, com seus cabelos grisalhos, meio século de idade e os olhos tristes, olhou o sol sobre o azul, depois para a bússula,  com mais nostalgia e intensidade ancorou os olhos ao porta retrato.

Quando conheceu Laura estava na marinha, tinha dispensa naquela sexta e decidiu sair com mais dois ou três marinheiros. Foram beber em um cabaré perto do porto de Itajaí. Comemoravam os 19... dezenove anos, dezenove amores por mês, o horário de dispensa (também às 19:00h) e outros 19 que não vem ao caso. Sempre com 19 cervejas.
Laura se hipnotizou fácil com o uniforme branco da marinha e terminou na cabine, sob o convés. 
Quando lhe perguntou sobre seus planos, ele disse apenas que era ser levado pela maré.

Conheceu Beatriz na noite que começou limpa e cheia de estrelas e terminou com chuva, vinho branco, cheiros e gostos. A ressaca derrubou a garrafa e eles riram embriagados de amor e sexo. Tinha 33 anos e sonhos enumerados de 1 à 10, queria realizar todos.
Quando lhe perguntou sobre seus planos, ele disse que era casar, ter uma família grande, com cinco filhos e três cachorros, queria também um aquário com carpas decorando a sala de estar.

Aos 42, as medalhas no uniforme enobreciam seu caráter, havia também uma coleção de amores pelo porto de Cabedelo. Sempre passava 1 semana por lá, visitava amigos, lugares e pessoas. Quando pediu Cíntia pela décima nona vez em namoro ela disse que o amaria e desamaria, quantas vezes fossem necessárias, mas já tinha o lado da cama e o dedo anelar esquerdo, ocupados.

Conheceu Fabíolas, Anas, Bárbaras, Fernandas e Cláudias. Guardaria quantos amores coubessem no bolso, até ELA aparecer.

Aos 60, a maresia desgastou o marinheiro. Haviam rugas e um semblante cansado de esperar. Checou a latitude e longitude dos seus sentimentos, estava exausto quando olhou para a mais brilhante Estrella, aquela que sempre esperou, aquela que nunca mais apareceu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Do seu lado da cama

Através do vidro da janela do ônibus, ele observava a cidade. Era final de inverno e a temperatura era mais gelada do que de costume. Todos com inúmeras peças de roupas, cachecóis azuis, moletons coloridos, toucas cinzas, luvas pretas e marrons, botas e casacos vermelhos, e todas as outras cores que couberem na sua aquarela. Coloridos que se contrastavam com o cinza do céu. Uma certeza que tinha, era a de que no inverno tudo se tornava mais bonito.

sábado, 3 de setembro de 2011

Just Believe

Ele começou por desprender o cabelo dela, sem muita pressa. Deixou ele cair pelos ombros, separou-os com cuidado para que descobrisse a nuca e a beijou. Ela sorriu (mas de um modo que ele não visse), sua respiração estava ofegante e quando se virou e o encarou, sentiu medo. Sentiu medo de gostar, medo de gostar pra valer dele.
Ele bebeu um gole de vinho, no gargalo da garrafa mesmo, sem cerimônias e em seguida ofereceu para ela. Ela tragou o cigarro mais um vez e soprou pro alto, em direção ao lustre prateado, também não se importou com o que ele pensaria e molhou a boca com o vinho.
-Apenas acredite. Ele a olhou no fundo dos olhos (o que para ela era preocupante. Será que viu quem sou realmente?-ela pensava nessa hipótese).
Seus lábios se tocaram e ele começou a tirar o tênis, com um pé ele apertava o calcanhar do outro, fez assim com o outro par. Estava de meias. 
Ela tirou a camiseta dele como a muito tempo não ousava fazer. Esqueceu e não se importou com os bons costumes.
Beijou seu peito quente, podia escutar o coração dele rápido e descompassado.
-Sua boca está suja  de baton Rafa.
Eles sorriram.
-Então tira.
Se beijaram novamente. 
-Eu acredito. Ela soltou as tais palavras com tanta facilidade e naturalidade que se questionou em segredo: Será mesmo que sou eu?
Sempre esteve no controle da situação e agora ela se via totalmente entregue ao rapaz.
O lençol branco ardia em brasa e os dois corpos juntos derreteriam icebergs do tamanho dos nosso medos.
-Acredita em destino Rafa?
-Acredito em nós Giulinha e quero que acredite também.
Ele olhou para ela, tirou com cuidado partes do cabelo que caim sobre o rosto dela.
-Apenas acredite. A beijou novamente.

Acordou do sonho com o gosto do vinho tinto na boca.
Pensou, só que seus lábios se moveram e a frase saiu para quem estivesse perto ouvir:
-Não acredito que sonhei com ele. E sorriu.
Enquanto se olhava no espelho ao escovar os dentes, ela lembrava dos detalhes do sonho e de repente, depois de mais de uma semana sem contato algum, sentiu uma necessidade enorme de ligar para ele.
Voltou do banheiro, abriu a janela do quarto, o sol brilhava intensamente e incomodou sua visão. Não se importou com isso. Vasculhou a bolsa atrás do bilhete dele. A pressa de ter nas mãos o "passaporte para a felicidade" era tanta que virou a bolsa de cabeça para baixo, deixou cair na cama tudo o que estava dentro.
Se lembrou de que o bilhete estava na gaveta de sua penteadeira. Abriu a gaveta e leu novamente a parte que lhe interessava:

"Deixo você optar, mas por favor não demore muito..."
Rafael

Olhou no verso o número do celular, pensou se deveria ligar, pegou o celular nas mãos. Lutou novamente contra o que sentia, tinha medo de sofrer como da última vez. Colocou novamente o bilhete na gaveta. (...)