segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quando a ruptura precisa acontecer

O seu cheiro e os seus sussurros no ouvido não me trazem mais arrepios, nem aquela movimentação alegre na cueca. Suas manias não são atraentes como quando nos conhecemos. Você continua linda quando prende os cabelos num coque alto e passa aquele batom vermelho que tantas vezes tirei com nossos beijos apressados, mas hoje eu prefiro cerveja com os amigos, e sua mão nas minhas costas agora me pinica inteiro. Eu também vejo seus olhos insatisfeitos, eles te denunciam. Então, por que continuar tentando? Não temos essa obrigação, podemos levantar da poltrona e abandonar o filme pela metade [...]


Primeiro tentamos um jantar naquele restaurante que eu te pedi em namoro, depois, tentamos aquela viagem para o litoral, fingimos deixar todos os problemas por aqui, mas eles desceram a serra conosco. Nosso pacto de resolver pendências e discordâncias não foi suficiente. A cada briga, jogávamos um pouco do que construímos pela janela, a cada remada em direções distintas, nossa parceria naufragava. Uma âncora de trezentos quilos chamada desarmonia se fincou nos nossos dias e agora precisamos dar um jeito nisso, minha cara.

Nossa relação me roubou o sorriso de criança boba que brinca com brinquedo novo. Faltou você me surpreender com aquele convite inusitado que você nunca mais fez. Faltou você me dizer ‘não’ de vez em quando ao invés de concordar sempre com tudo o que digo. Faltou vontade mútua para fugirmos do tédio. Faltou combustível e nosso carro ao ermo, agora é destruído pela ação do tempo. Eu pego carona no próximo bonde, porque me sentir vivo é minha maior prioridade. É primavera e não florescemos. A vida precisa continuar, devemos plantar a semente em outros jardins.

Não coloque a culpa em mim, não me chame de injusto ou impaciente e nem queira fazer eu acreditar que sou um vilão. Caso não aconteça a ruptura, ficaremos estagnados, impossibilitados de conhecer algo novo, algo melhor e grande, que traga principalmente a sensação de estarmos vivos novamente. Fernando Pessoa descreve com maestria: ”Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmo”.

Toda dificuldade nessa transição é opcional. Devemos nos despedir do passado, sem dó, sem dor. Não esquecê-lo ou guardá-lo em um baú de coisas antigas – desses que deixamos no fundo do armário, no mundo de Nárnia – não é isso, é apenas uma despedida. Devemos olhar para trás com carinho e a sensação de que fizemos e vivemos o que era para ser feito e vivido, porém o foco agora é o que está por vir, o antigo não tem mais brilho, então é para frente que devemos olhar.

Distribua amor, compaixão, generosidade e vibrações positivas. O universo nos devolve em triplo. Doses de atitudes, por favor, de seis em seis horas. Somente acreditar em nós, não serve mais para mim. Eu não consigo mais te admirar e me sinto incompleto ao seu lado. Não te culpo por isso, só precisamos achar um novo par. Alçar novos vôos é tão necessário quanto riboflavina, cálcio ou serotonina.

Voltará a ser feliz, isso é o que eu te desejo, pois não quero me sentir culpado quando eu voltar a ser. Quando não alimentamos nossa alma deixamos de brilhar. Somos mais de sete bilhões de estrelas com luz própria, temos total capacidade de atingir nossa felicidade, são incontáveis as possibilidades, devemos priorizar nosso compromisso em abastecer nossas necessidades vitais. Seja com um novo projeto empreendedor, um novo apartamento, um novo romance ou algo que te faça suar as mãos. Faça isso por você – desprenda-se. Arrisque. Abra a porta e veja o que te espera do outro lado.


Um comentário:

Marcela Alves disse...

que lindo e triste ao mesmo tempo, mas talvez uma tristeza necessaria. É sempre bom começar de novo. As vezes é até necessario!..

beeijos