segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A primeira vez que

O pêndulo do relógio, metodicamente dançava da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda. Ela andava pela sala inteira, percorria todos os espaços, assim como quem dança uma valsa no meio do salão de festas. A trilha sonora era o seu coração aflito, o tiquetaquear ritmado em dó. Era de madrugada e a única companhia era a TV [...]

Estava  linda. O vestido era preto, os brilhantes deitavam sobre o peito de forma harmoniosa, o batom vermelho e o salto alto a deixava elegante como há tempos não ousava. Não tolerava atrasos. Tinha marcado 00:30h. 00:31h estaria de pijamas e pronta para dormir, caso ele não chegasse.
Ele tinha uma pontualidade britânica, mas naquela noite algo conspirava contra. Ele tinha certeza disso. Todos os semáforos fechavam quando chegava sua vez de ultrapassar o cruzamento. No rádio, Beatles o distraia.
Assim que o vestido caiu no chão a campainha tocou. Explodia em seu corpo ondas de emoções que percorriam cada milímetro de suas articulações. Pediu proteção a Deus e a todos os anjos. Pediu que não fosse tragada pelos olhos castanhos, pediu que não sentisse arrepios quando aquelas mãos grandes tocassem sua nuca. Desejou não sentir atração pelo perfume.
 -Oi linda.
Ela se perguntava o porque dele sempre recusar chamá-la pelo nome, não achava nenhuma lembrança dele se referindo a ela como as outras pessoas faziam.
Como era de se esperar, ele sempre conseguia o que queria e a fez se vestir novamente. Todas as vezes que ficavam sozinhos a tal química vinha a tona.
Se conheciam bem, sabiam manias e lugares perfeitos de encaixe. O braço dele, por exemplo se encaixava direitinho atrás do pescoço dela. Conheciam o corpo um do outro de maneira detalhada... todos os contornos, voltas, pintas, desenhos de mãos e pés e por ai adiante.
Lembrou do quanto desejou ser envolvida por seus braços. Queria os olhos famintos sobre suas partes durante todos os longos meses que ficaram distantes.
Foram longos e intermináveis dias sem notícias. Ela ia toda sexta feira no botecos que ele costumava ir, na esperança de vê-lo sentado sozinho, tomando sua Bud e fumando seu cigarro. Desejou encontrá-lo, desejou alugar o quarto mais perto dali e juntos alcançarem o céu mais uma vez. Julho e o interminável Agosto passaram, ela teve a sensação que o sentimento também se fora.
Doce ilusão.
De repente ele tinha feito o convite, ela aceitado e ambos agora estavam a um passo de.
O silencia da casa facilitava  escutar o descompassado coração batendo aos berros dentro do peito.
-Só um minuto. –Ela disse.
Separou o seu vinil preferido.
-Dança comigo?
Encostou o rosto no peito dele. Sentiu novamente todas as sensações de meses atrás. Se lembrou do quanto foram felizes e das inúmeras brigas com promessas quebradas e corações partidos . Se deixou levar pelo seu cheiro, pela música que tantas vezes ouviram juntos.
Quase se beijaram. Ela abaixou a cabeça e pela primeira vez não deu vazão ao desejo tão imenso.
O passado os impediam de seguir em frente. Era necessário fechar o ciclo. Terminar meios relacionamentos é tão necessário quanto respirar.
Ele se voltou aos olhos delas. Tinham consciência que embora tenham se amado muito no passado, era necessário respirar novos ares. 
-Ainda não é o momento.
E foi embora.
Sabiam que esse momento não voltaria. Nunca volta. Agora era hora de seguir em frente. Talvez em uma outra estação. Em uma próxima reencarnação. 
Foi a primeira vez que não se devoraram.

Texto mais dela do que meu. Te amo.



2 comentários:

Marcela Alves disse...

AI AI.. ESSE "AGORA NAO É A HORA" ACABA COM QUALQUER UMA.. RSRSRS

BEEIJINHOS. LINDO POST.

Briccio disse...

Marcela realmente. Mas às vezes deixar para depois pode ser interessante também. Beijos.