sábado, 15 de outubro de 2011

Entranho jeito de amar

"Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro! Dentro de um abraço não se ouve o tic tac e, se faltar luz é ainda melhor... Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve." Martha Medeiros

-Pensei em dizer o quanto eu te amo!
-Mas você está dizendo, então pensou e disse.
-É, pode ser! Você está ausente esses dias amor.
-Muito trabalho, muito estresse, pouco dinheiro e muita encheção de saco.
-É, pode ser! Hoje de dia, enquanto eu estava no shopping pensei em você.
-Nem vem que o meu cartão de crédito está com o limite estourado, e recebo só na semana que vem, então vamos ter que ficar em casa vendo filmes até novembro.
-É, pode ser! Só que eu pensei em você porque eu vi uma camiseta na Levi's que combinaria com esse jeans que está usando.
-Mas o Natal está longe, ainda estamos em Outubro. Por que você gastaria dinheiro à toa?
-Não sei... só estou te dizendo o que pensei enquanto estive no shopping.
(silêncio)
-No mês que vem faremos 3 anos juntos, não acha que poderíamos marcar de ir comer foudue e tomar vinho naquele restaurante que comemoramos nosso primeiro ano de namoro? Aquele que você adora.
-Acho que não. Eu já não gosto mais desse restaurante e de tantas outras coisas faz tempo.
-O que aconteceu com o seu humor? Parece que foi para outro planeta?
-Você precisa ir para outro planeta!
(silêncio novamente)
-Será que preciso procurar um psicólogo? Será que estou surtando?
-Pega uma cerveja na geladeira por favor amorzinho, e traz o cinzeiro também porque eu vou fumar.
-Claro, só um minuto. 
Foi na cozinha, abriu o armário branco e pegou a caneca que ele gostava de tomar cerveja. 
Voltou para a sala com o vestido branco novo que comprou durante o dia.
-Está gostosa hoje, se produziu assim para mim?
-Entrego os pontos... para quem seria?
Ele se embebedou com umas dez cervejas, falou de futebol e mulheres gostosas como se ela fosse um amigo.
Ela não conseguia entender como um dia fora capaz de amar um cara desse. Tentou buscar boas recordações, procurou no primeiro ano, depois no segundo e por fim no terceiro. Se lembrara de alguns bons momentos, um pouco de afago, de uma carícia e de alguns presentes dele. Percebeu então que o problema não estava nele. Ele era o troglodita e merecia alguém assim como ele, dos tempos da caverna. Percebeu que ela própria era o problema, a situação era o problema, e aceitar continuar com tudo isso era o maior de todos os problemas. 
Só havia um detalhe: Ela amava 'o troglodita'. 'O troglodita' outras vezes lhe entregara flores, cartões postais, sms com frases de Saint-Exupéry durante a tarde entre outros mimos.
-Mas e se eu não suportar viver sozinha? -Pensou enquanto decidia.
Ela detestava mudanças, sempre achava que não conseguiria.
Voltou as 23:30 para sala, olhou para ele dormindo no sofá. Desligou a TV. Se encolheu embaixo dos braços, colocou a mão dele sobre a dela como se a protegesse e chorou enquanto tentava dormir.

7 comentários:

Luna Sanchez disse...

...

O que dizer, né, Eder?

Conheço pessoas que determinaram um período de tempo que julgaram suportável pra que o outro, que havia "se transformado", voltasse "ao normal"...rs

Não concordo, não temos esse direito. Podemos definir tempo pra nós, isso sim.

Beijo grande, grande, moço querido.

RENATO VIDAL S. disse...

É rotina habitual acontecer, os anos de um relacionamento muitas vezes aprovar o projeto, muitas coisas são avaliados, muitas vezes não é mais o mesmo, parece que amava tantos era totalmente desconhecido, o amor é o que conta, uma abraço a vida é mais que suficiente, um abraço expressa a falta de calor que às vezes o coração perde.
Bela história, linguagem agradável, gosto de sua habilidade para compor detalhes, cheia de nuances, é sempre diferente, sempre o prazer de lê-lo com cuidado, um abraço.

Surrender... disse...

Me perguntei muitas vezes em minha vida se a pessoa que estava do meu lado era a mesma por quem eu havia me apaixonado, vivi um relacionamento que chegou a esse ponto por 5 anos.Foram 5 anos no total e 3 anos de descaso,mas o problema realemente era eu pq eu aceitava.Com essa relação eu descobri que muitas vezes idealizamos quando apaixonados alguém que não existe e com minha relação atual venho aprendendo que muitas vezes enquanto me sinto injustiçada por não ter minhas boas intenções notadas a outra pessoa pode estar se sentindo do mesmo jeito e eu posso tambpem não estar vendo.
Somos egoístas muitas vezes e rotina massacra o Amor mesmo,mas ontem ouvi que sempre vale a pena e é nisso que me apego.
Ou isso ou desistir de amar pq todo mundo pode ser troglodita por um tempo e magoar quem ama.
Mas já fui muito essa mulher de vestido branco e ainda sou.

SilverLux (Éverton) disse...

Se ler este post novamente, começo a chorar... é como se você traduzisse o que sinto, sem nunca ter me conhecido! Linda crônica... obrigado por balançar meu mundo.
Com satisfação e desejo, sigo seu blog!!!

Eder Fabricio disse...

Me surpreendi com algumas reações... fiz esse texto assim, de bobeira, sem pretensão nenhuma dos leitores se identificarem com tal situação.

Não há o que dizer né Luna? Também acho inadmissível viver dessa forma. Um beijão.

Renato, concordo que a rotina pode levar a relação para essas circunstâncias. "O amor é o que conta, uma abraço a vida é mais que suficiente, um abraço expressa a falta de calor que às vezes o coração perde." gostei do seu ponto de vista. Amigo, um abraço.

Surrender minha querida. Caramba Dan, viver essas linhas com certeza não foi uma experiência agradável. "Ou isso ou desistir de amar porque todo mundo pode ser troglodita por um tempo e magoar quem ama." É para refletir, você está coberta de razão nessa citação. Beijos.

Éverton fico muito contente com a sua identificação com o texto. Gosto de verdade quando vocês aparecem por aqui e expõe suas verdades! Volte mais vezes. Estou te seguindo também, vou ler com calma o seu blog. Abraços.

Thaís Livramento disse...

Isto aqui tem cara de boa prosa... Te sigo!
Passe em Sinais de Mim, lá tem um lugar especial pra você na área Vip!!! ^^
Besos,
TL.

sinaisdemimtl.blogspot.com

Eder Fabricio disse...

Thaís, bem vinda!